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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

True Blood

A "terra da liberdade", vulgo Estados Unidos da América, é também a terra dos puritanos e talvez por isso a terra onde a revolução sexual dos anos 60 ou a crise da SIDA tiveram um impacto mais violento. O país sempre me pareceu ter uma relação no mínimo esquizofrénica com o sexo e tudo o que o rodeia. O senhor Philip Roth, por exemplo, escreve muito bem sobre o assunto.

O que me leva contudo a este post, é a série "True Blood" de Allan Ball que, ao oitavo episódio da segunda temporada, me merece algumas considerações. O Cálssio chamou-lhe "um produto manhoso, mal escrito e francamente medíocre", mas eu acho que são saudades do "Six Feet Under", se não o prazer era menos "guilty".

Tudo começa pela própria natureza da televisão. Algumas experiências conduzidas sobre a reacção do cérebro perante um televisor ligado, concluiram que a actividade neuronal diminui, comparada com a sentida perante um televisor desligado. Ver televisão é sobretudo uma experiência sensorial e irracional e em "True Blood", o senhor Ball optou pelo sexo e pela violência como um bom ponto de partida para nos brincar com a cabeça. Do lado de dentro.

"True Blood" não é uma série de vampiros. Não é sobretudo dos vampiros adolescentes e sem sal que dominam algum imaginário do entretenimento actual. À segunda temporada, torna-se claro que é uma série sobre desejos permitidos e proibidos, moral e hipocrisia, discriminação e diferença, poder e o seu exercício.

O estilo é desbragado e explícito, bem cravado no sul dos Estados Unidos, onde os fundamentalismos pulsam mais fortes e a história fala mais de escravatura e outras violências. O imaginário é um caos, uma salada de antigo e moderno, entre o mais religioso e o mais pagão, com os vampiros a servirem de fio condutor. Mas nem só de vampiros vive a série. Depois há sangue, muito sangue, claro, aquilo que nos circula nas veias e nos aquece ou arrefece o desejo.

Se ainda não viram, vão ver. Quer amem ou odeiem, estão a perder um fenómeno.

Alan Ball sobre True Blood

Agora que parece que vai haver um espaço um bocadinho maior para a criatividade naquilo que faço, descubro-me cada vez mais interessado em (quase) todos os processos criativos. Alan Ball é um belíssimo argumentista/criador para televisão e a sua nova série traz-me viciado.

Vale a pena ler esta entrevista para perceber alguma da mecânica por trás da sua criação: um equilíbrio entre divertimento e seriedade, entre pessoal e universal, entre texto e subtexto. Gosto particularmente deste último, onde acho que ele acerta na mouche ao falar de como os subtextos realmente interessantes são aqueles que nascem de quem vê, da própria textura do objecto criado, sem grandes pretensões ou intenções por parte do criador.