Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Vaclav Havel.

Estive em Praga nos anos 90, numa conferência do Conselho da Europa sobre Arte e Tecnologia, destinada a desenhar grandes linhas estratégicas de pensamento para a revolução digital que se anunciava. Essa conferência decorreu sob a presidência de Vaclav Havel, que hoje morreu.

Fiquei a pensar.

Nos anos 90 parecia que se ia cumprir o sonho de uma Europa unida. O muro tinha caído. A Europa não precisava de ser apenas um satélite estratégico dos Estados Unidos. Não havia medo de perguntar às pessoas o que queriam, o que achavam. A Checoslováquia foi dividida em dois por decisão popular. Dramaturgos e poetas podiam ser presidentes da república. As revoluções eram de veludo, mesmo sem Facebook. O mundo estava a mudar.

Nos anos 90 estavam já os sinais do que podia acontecer, também, contudo. A primeira guerra do Iraque. O apocalipse jugoslavo. O capitalismo sem freio da nova Rússia. O fundamentalismo islâmico e católico. A promessa do final de milénio cumpriu-se em pesadelo.

Hoje vivemos numa era de excesso que tende a afogar quase todas as vozes, na tempestade perfeita da economia globalizada e digitalizada, no ocaso de uma ideia de Europa. Hoje, como sonho, temos emigrar e como visão para o futuro, temos nada. Dizem-nos apenas que talvez os indicadores mudem daqui a uns anos. O futuro é como o presente, feito de números vácuos e não palavras com sentido.

Por isso vou ter saudades que existam no mundo pessoas como Havel.