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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Watchmen.

Foi nos idos dos anos 90 que o dr Bakali (A.K.A. António Saraiva) me apresentou a banda desenhada de Alan Moore e Dave Gibbons. "O Watchmen", dizia-me ele e ainda me lembro,"não é uma banda desenhada normal, exige tempo como um romance". Li a edição que me emprestou e se bem me lembro fiquei com ela para a oferecer a alguém. Depois disso voltei a comprá-la umas duas ou três vezes e a oferecê-la o mesmo número de vezes. Neste momento possuo a edição Absolute, mais pesada e difícil de oferecer.

Citei o Watchmen no meu primeiro romance, "Aquariofilia". Era qualquer coisa deste género: "No final do sexto capítulo de Watchmen de Alan Moore e David Gibbons, o dr. Malcom Long, psicanalista, apercebe-se finalmente dos horrores profundos da mente do seu criminoso paciente, o tresloucado super-herói Walter Kovacks, também conhecido como Rorschach, por usar uma máscara com um padrão semelhante às famosas manchas. “Mal”, como lhe chama a mulher, senta-se na cama do casal e olha para um cartão com uma mancha de Rorschach. Tenta imaginar uma árvore de copa larga, as sombras espalhando-se por baixo dela, mas só consegue ver um gato morto que encontrou uma vez, mas mesmo isso é evitar o verdadeiro horror: é uma imagem do vazio negro, do nada, estamos sós, não há mais nada. O capítulo acaba com uma citação de Nietzsche: “Não combatas contra monstros, podes tornar-te um, e se olhares para o abismo, o abismo olha de volta para ti”.

Esta cena não consta do filme de Zack Snyder, como muitas outras, mas isso é irrelevante. Como em qualquer adaptação bem feita, do filme consta o espírito e o ambiente visual da banda desenhada, o tom do original (já acontecia em 300). Sim, desconto-lhe algum kitsch e o final mudado.

Como era já na sua versão em papel, o Watchmen em filme é o triunfo de um género em cinema, com um grau de audácia e complexidade que só pode merecer o meu aplauso.

Críticas.

Duas. Arrasadoras. A primeira ao Watchmen, pelo New Yorker. Parece à partida escrita por alguém que despreza toda a cultura popular desenhada em quadrados numa página, mas aqui e ali tem uma acutilância que me faz temer o pior. A segunda ao novo álbum dos U2, "No Line on the Horizon", no Pitchfork. Confesso que continuo a achar o "Achtung Baby" a melhor coisa dos quatro irlandeses e nos últimos anos desliguei, por isso custa-me menos a engolir.

A promoção do Watchmen.

É verdade que a maior parte dos filmes baseados em comics têm sido um sucesso de bilheteira, mesmo os mais off à partida, como é o caso de "300", realizado por Zack Snyder, o mesmo que adaptou agora "Watchmen".

Os maiores sucessos como os vários X-Men ou os vários Batman têm uma base sólida de anos implantada na cultura pop norte-americana, com centenas de edições, variações e explorações das personagens. "Watchmen" é um caso diferente. É uma banda desenhada de culto, extensa em duração, sem prequelas ou sequelas, complexa e a puxar para o filosófico, brilhantemente escrita e desenhada por Alan Moore e Dave Gibbons respectivamente, adorada pela crítica.

O projecto da sua passagem ao cinema tem já uma aura "maldita", com sucessivos realizadores a desistir (Terry Gilliam, Darren Aronofsky, Paul Greengrass), Alan Moore a demarcar-se do projecto, conflitos legais entre a Fox e a Warner.

O filme irá ser o que for, visto por fãs e não-fãs do original em papel das maneiras que lhes der mais gozo, como aliás tinha já acontecido com "300". O que acho realmente interessante é a estratégia da sua promoção, tentando trazer a maior diversidade possível de públicos para dentro do projecto, tentando conquistar crítica e massas.

Dessa estratégia faz certamente parte esta entrevista do realizador ao New York Times. Que o próprio venha defender o seu projecto, as suas opções, seja posicionado como autor no jogo dos estúdios é notável como marketing para um projecto que tem um orçamento suposto de 120 milhões de dólares e espera certamente triplicar esse valor só em receita em sala.