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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

A morte e a indústria.

Agora que o natural movimento de histeria de massas em torno da morte de Whitney Houston acalmou, vale a pena tecer alguns comentários.

Em tempos pre-autotune, a senhora Houston tinha uma voz acima da média, treinada no Gospel, explorada nos terrenos do crossover entre soul e pop, áreas musicais de que me mantenho, de um modo geral, afastado. Honra lhe seja feita. Aos números do mundo da música, acrescente-se algumas passagens por meios adjacentes, nomeadamente o cinema, que lhe deu provavelmente o seu maior êxito, "I Will Always Love You", já repetido à exaustão antes da morte e agora em clara overdose, passe o humor negro.

Whitney Houston é produto de uma era em que ainda se vendiam discos em quantidades obscenas. O filme "The Bodyguard" antecede em oito anos a passagem do milénio, altura em que a indústria musical vendeu mais cópias físicas do seu conteúdo do que alguma vez na história. O domínio sobre a cadeia de valor da música era total e permitia construir e lançar para o estrelato global produtos como Whitney Houston, neste caso até com algum talento envolvido, noutros nem por isso.

Hoje a capacidade de controlo da indústria musical é mais difícil e o sucesso mais complexo de construir, envolvendo um sem número de meios reais e virtuais e não o triunvirato sagrado do século passado discos-rádio-concertos. Por questões de simplicidade, incluo a MTV na parte "rádio". Hoje a MTV já nem sequer passa música. Lançar um artista é construir uma marca, publicitá-la e licenciá-la no maior número de meios possível, fazendo-a render para públicos alvo específicos que têm na Internet um meio de comunicação e expansão que pode arder rapidamente num incêndio exuberante ou queimar em fogo lento para uma explosão algures no futuro. No passado isto tudo acontecia em circuitos bem definidos, hoje o nível de risco e incerteza é bem maior e a recompensa bem menor, pelo menos para a indústria.

No passado como no presente, a morte faz parte da equação, faz parte da ascenção e queda de qualquer estrela pop. E tanto melhor se a morte for espetacular: uma queda de avião, um acidente de automóvel, um assassinato a tiro, uma overdose lenta ou rápida de uma qualquer droga mais ou menos legal. Foi só o que voltou a acontecer. Ainda por cima em véspera de Grammys, a celebração da indústria pela indústria. Ninguém tem muita paciência para artistas que morrem de velhos na cama.

Para um artista, parece-me, é particularmente fácil morrer, se for honesto com a sua arte, se se comprometer totalmente, se se emocionar mais do que a pessoa comum, se se apaixonar com mais intensidade, se subir mais alto e cair mais fundo. E seja recluso num bosque, casado na imprensa cor-de-rosa, preso, em reabilitação numa clínica, há sempre maneiras de ajudar o artista na montanha russa.

Um artista morto tem vantagens e desvantagens. A desvantagem parece óbvia, embora nem sempre o seja: já não produz mais nada da sua arte. Há é claro, sempre, as homenagens, as covers, o funeral transmitido em direto, os biopics e com um bocado de sorte, inéditos no fundo de uma qualquer arca. E aí entram as vantagens. Um artista morto não tem exigências, não consome drogas, não engravida, não quer viver para além da sua música. Basicamente, um artista morto não chateia. E pelo menos durante algum tempo, vende mais do que quando estava vivo. Note-se a infeliz manobra da Sony Music, aumentando o preço de álbuns da falecida no iTunes e dois dias depois forçada a pedir desculpa. Tudo tão rápido, hoje em dia.

É tudo parte do processo, é tudo parte da história, and the show must go on.